Padre Pedro Willemsens - Meditações

← Padre Pedro Willemsens - Meditações21 août · 1 h 12 min

Aula sobre Fé & Razão

Aula sobre Fé & Razão21 août1 h 12 min

<p>A fé cristã não nasce de um salto no escuro nem de uma disputa entre cegos tentando adivinhar um elefante. A imagem dos cegos, cada um tocando uma parte do animal e convencido de possuir o todo, traduz uma suspeita atual: talvez todas as religiões sejam tentativas limitadas de falar sobre um mistério que ninguém consegue conhecer. O cristianismo, porém, faz uma afirmação decisiva: Deus não permaneceu objeto de suposições, Ele se revelou. Jesus Cristo não pede apenas confiança: ensina, argumenta, responde perguntas, usa parábolas, recorre às Escrituras e convida a olhar para suas obras. Por isso, a fé cristã é racional, porque possui razões e anuncia uma verdade; prática, porque transforma a vida; e sobrenatural, porque nasce da graça de Deus. São Pedro pede que o cristão esteja pronto para dar “a razão da sua esperança”, enquanto São Paulo une argumentação, testemunho e ação do Espírito Santo.</p><p>Essa união entre fé e razão atravessa a história da Igreja. O Concílio de Niceia recorreu à linguagem filosófica para afirmar que Cristo é verdadeiramente Deus e consubstancial ao Pai. Clemente de Alexandria viu na filosofia um instrumento da fé; São Justino e Tertuliano defenderam racionalmente os cristãos; Orígenes respondeu a Celso. Mais tarde, Santo Ambrósio enfrentou o argumento de Símaco de que muitos caminhos religiosos poderiam conduzir ao mesmo mistério: a diferença cristã estava na Revelação. Santo Agostinho, dialogando com Varrão, mostrou que o cristianismo não escolheu apenas mais um deus, mas se apresentou ligado à verdade buscada pelos filósofos. Na Idade Média, essa aproximação floresceu na Escolástica e em São Tomás de Aquino. O Deus que a razão procura é o mesmo Deus vivo que entrou na história.</p><p>A ruptura começa quando fé e razão passam a caminhar separadas. De um lado, correntes influenciadas por Guilherme de Ockham e depois pela Reforma protestante acentuaram uma fé desligada da filosofia, chegando em formas modernas a reduzir o cristianismo a sentimento, moral ou experiência subjetiva. A imagem do presépio do qual cada estudioso retira uma peça até sobrar apenas uma luzinha mostra o perigo de esvaziar a fé em nome de uma suposta purificação racional. Do outro lado, a razão passou a pretender caminhar sem a fé. Descartes encontrou na matemática uma certeza que parecia indiscutível; Newton uniu matemática e experiência e deu à ciência grande capacidade de prever a realidade. Iluminismo e positivismo alimentaram a esperança de que a ra