
← No escuro5 days ago · 38 min
Hope é o filme mais divertido que vimos este ano. Os monstros vieram da Coreia
Monstros (mas o que são os monstros, afinal?) e humanos numa pequena cidade perto da zona desmilitarizada que separa as duas Coreias. Homens com armas nas mãos, sem saber como travar uma orgia de destruição inexplicável, descrições escatológicas detalhadas, gente estranha, a comédia humana em versão filme catástrofe, em versão filme de extraterrestres, em versão western. Seres que podem ter saído da saga Alien ou de Avatar. Hope, do coreano Na Hong-jin, é um alucinante divertimento, com uma primeira hora de uma perseguição que não vamos esquecer tão cedo. Em que momento os coreanos transformaram a influência norte-americana em algo muito próprio, com um humor que mistura crítica social e violência de desenhos animados? O que é certo é que o Governo coreano percebeu a força do <em>soft power</em> e a cultura está no centro da sua estratégia.
Mas se a estreia de Hope nas salas portuguesas marca a rentrée, no Festival de Veneza, Vasco Câmara também se entusiasmou com um filme vindo da Coreia do Sul: Possible Love, de Lee Chang-dong, mais uma vez um olhar sobre a comédia humana, mas este mais melancólico. É a história de dois casais e de uma “possibilidade” acontecer entre eles. "Não há uma moral da história, nem crime e castigo, nem espectáculo de 'filme de género' com os ricos e os pobres, aquilo que se generalizou cinematograficamente a partir do sucesso de Parasitas, de Bong Joon-ho (2019). Este é um filme, explicou o realizador, nascido do confronto de um tímido com as imparáveis mudanças nas sociedades", escreveu Vasco, a partir de Veneza.
E também em Veneza foi mostrado aquele que prometia ser um dos filmes mais importantes do festival: NAZA, feito por uma dupla israelita, Yuval Abraham e Rachel Szor, parte de uma investigação de 2023 que pôs a falar ex-funcionários israelitas do sistema de morte em Gaza. É uma fria máquina de guerra, distante das suas vítimas e indiferente ao mal que causa que se revela neste filme impressionante.
É da Coreia e dos seus monstros fictícios e de Gaza e do seu terror real que falamos neste episódio do No Escuro.
No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema.
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